terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal & 2011


“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Cora Coralina

Um Natal de muita paz e que o Novo Ano seja repleto de realizações!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

As estruturas de referência no diálogo da liderança – IV

No último post desta série (publicado em 21/06/2010), deixei no ar uma reflexão para os líderes sobre as diferenças fundamentais entre o que a sociedade deseja e o que as organizações oferecem.

Vamos seguir na linha do que Zuboff & Maxmin nos oferecem no livro “O Novo Jogo dos Negócios”. Os autores situam na história a questão da individualidade psicológica, que no passado (não muito distante...) era privilégio de um grupo de elite de artistas e espiritualistas – raro, ilusório, precioso. Hoje, porém, em função da revolução / evolução permanentes da sociedade da informação, grande parte das pessoas, independente de classe ou grupo social, está mais do que nunca na busca da individualidade, da autodeterminação psicológica, no sentido de ter suas necessidades e aspirações atendidas de maneira absolutamente únicas.

No paralelo da busca da autodeterminação psicológica dos indivíduos, nos deparamos com empresas cuja estrutura e estratégias parecem seguir o mesmo modelo dos primeiros anos do século XX, quando foram concebidas para atender a produção e distribuição de bens e adaptadas com pouco sucesso para a prestação de serviços em meados desse mesmo século. Entretanto, a entrega de produtos e serviços nos dias atuais não atende de forma adequada essa nova realidade da experiência individual.

“Na busca de autodeterminação psicológica, os novos indivíduos querem algo que as empresas modernas não conseguem lhes proporcionar: um apoio palpável para levar as vidas que escolhem. Querem ficar livres do estresse, raiva, injustiça e derrota pessoal que consomem tempo e acompanham tantas negociações. Resultado: surge um abismo entre os novos indivíduos e o mundo das organizações de negócios. Muitas pessoas, consumidores e funcionários acreditam que as empresas estão abandonando aqueles a quem deveriam estar servindo – o passado do capitalismo vive hoje um corajoso confronto com as realidades da vida do homem atual.

Empresas investem bilhões em ciclos infinitos de rápidas avaliações para “redescobrir” seus consumidores finais. Porém, é impossível, nos termos dos modelos de empresas atuais, eliminar o abismo que separa os novos indivíduos de suas organizações comerciais. Ao contrário, esse abismo reflete uma lógica empresarial que sobreviveu à sociedade à qual servia no passado. Pouco importa como as organizações consideram seus consumidores. Em todos os casos, a empresa moderna, da forma como a conhecemos, não consegue compreender o que é mais importante com relação aos seus atuais consumidores finais. A indiferença das empresas resultou em uma desconfiança saturada – que, com frequência, chega à repulsa – entre consumidores finais, assim como uma nova determinação de encontrar alternativas ao status quo do mercado atual.”

Esse trecho do “Novo Jogo dos Negócios”, pode nos levar a continuidade de nossa reflexão inicial, na busca de alternativas de resposta:

  • Mas, as organizações não são feitas por indivíduos dessa mesma sociedade? Como pode haver um contraste tão profundo nessa relação?
Voltamos em breve com mais um post para aprofundarmos esse tema!

Abraços e aguardo comentários!

Sergio

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Diálogos e Pensamento Coletivo

"De tempos em tempos, a tribo reunia-se num círculo. Simplesmente conversavam e conversavem, aparentemente sem propósito algum. Não tomavam decisões. Não havia líder. Todos podiam participar. Podia haver homens sábios ou mulheres sábias a quem se escutava mais - os anciãos - mas todos podiam falar. A reunião continuava, até que, finalmente, terminava sem motivo algum e o grupo se dispersava. Ainda assim, depois daquilo, todos pareciam saber o que fazer, porque entenderam tão bem uns aos outros. Então podiam reunir-se em grupos menores e fazer algo ou resolver coisas." David Bohm, On Dialogue

Extraído do livro Sincronicidade, Joseph Jaworski

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Futebol para a vida
As preciosas lições do velho esporte bretão para o nosso cotidiano
texto Ronaldo Bressane - Publicado na Revista Vida Simples

E na vida, você é adepto do drible ou do passe?

“No futebol não tem surpresa”, falou o técnico Dunga a mais de um mês da Copa. “No futebol não tem surpresa” – a frase repercutia na minha cabeça. Era assim que o treinador da seleção explicava o motivo para não introduzir os jovens atletas malabaristas do Santos em um time que joga junto há quase quatro anos, já tendo portanto um padrão bem definido de jogo. Como escrevo do passado, não tenho como saber se Dunga ouviu a voz do povo e convocou Neymar e Ganso; mas isso não vem ao caso, e sim o significado dessa frase tão bisonha quanto matar uma bola de canela. Lembrei-me de outra frase famosa, esta de Oscar Niemeyer: “A linha reta não sonha”. Todo gol vem da curva surpresa, como num sonho, até aqueles gols mais esperados, como os de pênalti ou os feitos por Ronaldo Fenômeno depois de arrancada mortal (na época do Barcelona, por supuesto).

É bem provável que Dunga queria dizer que no futebol, depois de tudo ensaiado, milimetrado, calculado e combinado, as surpresas acontecem quase no modo automático. Afinal, o técnico representa uma seleção pragmática que se convencionou chamar de Era Dunga. O time de 1994 que venceu uma Copa depois de 24 anos aliava, de um lado, a força de Dunga e Mauro Silva no meio-campo com os lampejos do craque Bebeto e a letalidade do fora de série Romário. Mesmo assim, fica difícil entender como um time que faturou o caneco com uma penalidade desperdiçada por Roberto Baggio na final do torneio poderia não ter contado com o acaso, o destino, o lendário Sobrenatural de Almeida (como dizia Nelson Rodrigues, cronista genial). Será que o Dunga acha que aquela bola fora italiana também havia sido prevista na prancheta do Parreira?

“Provocar o inesperado. Então, esperá-lo”, diz o filósofo Paul Virilio. Talvez Dunga esteja sendo ainda mais filosófico em sua defesa da falta de surpresa. Sua crença no planejamento é tão grande que ele pretende, como o Matraga de “A hora e vez de Augusto Matraga”, conto de Guimarães Rosa, “entrar no céu nem que seja a tiro”: torcer o destino até convencê-lo que sua ideia inflexível seja a correta, impingir aos adversários sua tese de maneira tão implacável que colher os louros da vitória pareça uma comprovação da lei de causa e efeito. Dunga é um apóstolo da verdade essencial do futebol: a colaboração, a ideia de que o resultado final vai acontecer mediante a participação de todos – e, se um falhar, outro irá cobri-lo em seu lugar.

Drible x passe

É preciso reaprender a colaborar com as crianças. Lembro que só fui compreender essa verdade fundamental do “colaboracionismo” ao assistir às partidas de futebol de Lorenzo, meu filho de 7 anos. Quem já assistiu a uma pelada entre moleques – mesmo que apitada numa escolinha de futebol – sabe que não existe esquema tático que vença a gana alucinada de, ao menos, dar um chutinho na bola. Nos primeiros jogos, a quadra parece uma praça cheia de pombos. Os moleques pulam na redonda como pássaros mergulhando sobre um saco de milho. Depois de um tempo, se cansam. Alguns se desinteressam do jogo; outros continuam insistindo em se atirar na bola; e há aqueles que ficam por perto, rondando, esperando a chance de pegar uma jogada espirrada. Com esses é que mora o jogo: aprenderam que, sozinhos, não vão conseguir buscar a bola no meio e levá-la até o gol.

Entende-se muito sobre o caráter humano assistindo a um jogo de futebol infantil. É possível distinguir toda a variedade de tipos em seu berço. Com 7 anos já se adivinha a personalidade que as figurinhas terão ao longo da vida – os obedientes, os mascarados, os leais, os orgulhosos, os egoístas, os generosos, os alienados. Havia um menino que sempre chorava porque não lhe passavam a bola – mesmo que fizessem o gol: “Mas era minha vez de fazer!” Lourinho, logo foi apelidado de “Reclamão”. Dois irmãos meio doidões davam as costas ao salseiro que se plantava na pequena área para exibir um ao outro as formigas e besouros que haviam colhido no gramado. Um cabeludinho fominha não soltava a bola, era derrubado e se jogava espetacularmente, pedindo falta. Um magrela disparava tipo trombadinha para cima do jogador adversário, até lhe ganhar a bola. Um gordote parecendo um tanque de guerra levava tudo pela frente, bola, grama, jogadores de seu time e do outro, e, na hora de finalizar, furava e ia descontar chutando a canela do professor. Havia os que se irritavam e saíam do campo para resmungar com a babá, sendo imediatamente consolados. E também aqueles que faziam exatamente o que o professor fazia, jamais tentando um improviso.

Enquanto isso, havia aqueles que tomavam cascudos mas seguiam em frente, e aqueles que, na hora de fazer o gol, cara a cara com o goleiro, preferiam passar a bola para o companheiro que surgia de trás. De repente fulguravam jogadas magistrais. Era óbvio que essas jogadas aconteciam no momento emocionante em que aqueles minijogadores de Playstation compreendiam estar participando de uma criação coletiva. Daí talvez o encanto do futebol, um esporte em que o individualismo não exclui a solidariedade, e vice-versa. Mas, mesmo que existam jogadores excepcionais, que parecem viver em um campo só deles, nenhum Messi, nenhum Kaká, nenhum jogador pode ser maior que o jogo. Depois de uns dois meses na escolinha, Lorenzo, que até então só havia jogado com o perna de pau que vos tecla, sobre quem adorava impor o drible da vaca (em que o jogador dá um passe longo para si mesmo e vai buscar a bola do outro lado do adversário, especialidade de velocistas como Romário ou Neymar), ouviu minha pergunta: “O que você acha mais importante, o passe ou o drible?” Fiquei mais orgulhoso que quando ele marcava um gol ao ouvir: “O passe, lógico. Sem passe não tem gol, pai”.

O respeito

Quando todos os integrantes de uma equipe se respeitam e se veem num mesmo nível, deixando o ego do lado de fora, a competição não é por saber quem é o melhor – mas qual a maneira de alcançar o melhor resultado. Em outros campos da vida, como no futebol, há mascarados, há os que jogam para o time, há os que se escondem na hora de bater o pênalti. E, no momento em que o time está afinado, é impossível disfarçar a melhor solução: ela se impõe naturalmente, como um gol que todos comemoram

O leitor de uma matéria como esta talvez não imagine que determinado tempero possa ter sido agregado pelo editor, que uma legenda engraçadinha tenha sido fornecida pelo diretor de arte ou que o título tenha sido criado pelo estagiário que estava passando e viu a imagem da abertura por um ângulo inusitado. É assim que acontece. Em jornalismo, em raríssimos casos uma única pessoa é responsável por todo o produto final. E, queira crer, leitor, quase sempre, em se tratando de uma matéria brilhante, o processo foi colaborativo, jamais individual. O mesmo deve acontecer numa empresa de tecnologia, num estúdio de cinema, numa agência de propaganda, num pronto-socorro e, por que não, até numa agência bancária. Mesmo nos ambientes mais capitalistas, é a engrenagem do materialismo comum que impõe-se como regra – ainda que um apareça mais que todos

Mesmo nas manifestações artísticas, em que se tende a valorizar o gênio que desponta solitário, é preciso entender que houve condições propícias para que ele aparecesse, colegas com quem tocou a bola e até adversários que lhe desafiaram as convicções. A Semana de 22, liderada por Oswald e Mário de Andrade, não existiria sem as caneladas e cotoveladas de um adversário como Monteiro Lobato. Para que Miles Davis se impusesse, foi-lhe indispensável a companhia de Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e um longo etc. No Brasil, pátria do toque de bola por excelência, foi sempre assim – com a bossa nova nos anos 50, com o tropicalismo nos anos 70, com o cinema da retomada dos anos 90, com a arte de rua dos anos 2000. “Ninguém é uma ilha”, escreveu o poeta inglês John Donne.

O talento

Claro que existem equipes que trabalham somente para que um genial integrante se sobressaia – eu me lembro, por exemplo, do time do Corinthians campeão brasileiro de 1990, em que o camisa 10 Neto era uma ilha de genialidade rodeada de operários e esforçados por todos os lados. Mas, naquelas equipes que reúnem os maiores talentos individuais, o coletivo sempre acaba prevalecendo – é o caso da seleção de 1970, a única da história que reuniu cinco camisas 10 até hoje (Pelé, Gérson, Rivellino, Tostão e Jairzinho).

A tese de que os valores individuais geram o melhor coletivo, porém, pode ser facilmente batida quando se lembra de outra seleção que encantou o mundo: a de 1982, que juntava Zico, Sócrates, Éder, Falcão, Cerezzo, Júnior, Serginho etc., sob a batuta do “futebol-arte” conforme pensado por Telê Santana. Até então, era um time invencível, que aliava exibições individuais brilhantes à manutenção da posse de bola como não se via desde o time holandês de 1974, que propunha o “futebol total”, em que todos eram atacantes e defensores e nenhum jogador guardava posição. Até que veio o infame jogo com a Itália no estádio de Sarriá – e o resto é história. O que teria faltado para superar a “surpresa” chamada Paolo Rossi? Talvez, se jogássemos mais nove vezes, ganharíamos todas; em todas as outras realidades alternativas, o Brasil seria logicamente campeão, como não se cansam de dizer todos os sábios de botecos do país. Ou talvez tenha faltado àquela seleção um fator relâmpago – como o gol de Gaúcho contra a Inglaterra em 2002, quando o camisa 11 tentou lançar uma bola na área e ela acabou entrando no ângulo como se tivesse ganhado uma mãozinha invisível.

Recordo outra equipe do Corinthians, este um péssimo time, tão ruim que era chamado de “Faz-me rir” nos anos 60 (sozinho Pelé fez 50 gols no Timão). Por alguns meses circulou entre os reservas um jogador cujo apelido era Louco. Como o personagem de Mauricio de Sousa, Louco operava sob regras muito próprias. Quando o alvinegro paulistano estava perdendo, o técnico mandava o Louco para o aquecimento. Faltando 10 minutos, Louco entrava em campo exibindo todo o seu vasto repertório de dribles da vaca, pedaladas, elásticos, chapéus, chilenas, roletas-russas. A torcida o amava porque ele desestabilizava o adversário puxando toda a marcação para si, abrindo espaço para que os outros jogadores pudessem empatar a partida no finzinho – além de criar um espaço mágico dentro da tensão da peleja. O problema é que, quase sempre, quando o Louco detinha a bola e chegava à pequena área, sua delirante vocação para o drible se interpunha entre jogador e objetivo... e ele resolvia voltar a driblar para trás, enrolando-se todo entre goleiros e zagueiros. Até que um atacante alvinegro lhe roubasse a bola para fazer o gol.

O Louco era o anti-Tostão: autista brilhante, era um gênio da digressão, fazia questão de prolongar a história para além de seu ponto final, instaurava a dúvida no primado da objetividade, preferia o circo ao resultado. Era tão inútil quanto uma borboleta morando num grampeador. Era como se Didi Mocó caísse numa arena de gladiadores. Não raro sua entrada desconcentrava o próprio Corinthians, que, tão preocupado em fazer com que ele concluísse a jogada, acabava abrindo o flanco para no contra-ataque tomar mais um gol do oponente. Como todos os que se insurgem contra as regras do jogo, Louco teve carreira curta, foi pulando de time em time até sumir da série A, da série B...

O time todo

No momento em que esta revista chega às suas mãos, este texto passou por muitas pessoas até se tornar uma matéria que faça sentido. Logo mais a seleção entra em campo para demonstrar que, através do colaboracionismo e do comprometimento total, nenhum obstáculo é intransponível. Daqui do passado, de onde escrevo, torço para que Dunga esteja certo – e Garrincha, errado. Como se sabe, o camisa 7, que em 1962 ganhou a Copa praticamente sozinho, costumava ouvir as preleções do treinador muito sério: “Vocês fazem isso, eles vão fazer aquilo, aí vocês fazem isso etc. etc.” Até que um dia Garrincha mandou: “Mas vocês já combinaram o isso com o João?” João era o nome que o mitológico ponta-direita dava aos zagueiros oponentes. Aqueles que, no entendimento de Dunga, já devem ter sido previstos para que qualquer surpresa seja anulada.

Não se trata de promover um Fla- Flu entre legendas do esporte, mas o fato de que, ao contrário do formidável Mané Garrincha, Edson Arantes do Nascimento nunca abandonou o espírito de equipe nem deixou de reconhecer a crucial importância de cada um dos colegas durante as quase duas décadas em que atuou pelo Santos Futebol Clube. Craques que conviveram com o Rei no dia a dia dos treinos e partidas costumam rememorar, enlevados, sua intensa preocupação com os companheiros – isso dentro e fora dos gramados. Até na colaboração Pelé era um atleta e um homem de exceção. Pensar nos objetivos maiores de uma equipe não só é uma virtude honorável, mas uma necessidade em praticamente todos os momentos da vida.

No fundo, torço – como todo brasileiro – para que os jogadores esqueçam Dunga e o surpreendam com seu talento conjunto. Na verdade, queria ver Dunga traído pela arte que propôs olimpicamente ordenar. Porque o ideal do colaboracionismo não é o jogo em si – mas o verdadeiro espetáculo criado por seu funcionamento, como uma máquina que trabalha sozinha, preocupada em somente tocar a bola para a frente, para a frente, roubando ao destino a parte que parece devida a todo artista. Como diz o aviador e escritor norte-americano James Salter: “Os poetas, escritores, os sábios e vozes de seu tempo, formam um coro. O hino que partilham é o mesmo: os grandes e pequenos estão juntos, o belo vive, o resto morre, e tudo é absurdo, exceto honra, amor e o pouco que é conhecido pelo coração”.

Livros
  •  Como o Futebol Explica o Mundo, Franklin Foer, Zahar
  • O Homem e a Bola, Armando Nogueira, Globo

segunda-feira, 21 de junho de 2010

As estruturas de referência no diálogo da liderança - III

Os conceitos e ferramentas de liderança e gestão vêm evoluindo nas últimas décadas, acompanhando as mudanças profundas pelas quais passam os diálogos na sociedade contemporânea, ávida por participação, influência e valorização das questões únicas de cada indivíduo. Nesse sentido, desde a década de 1960 dividimos as gerações, ao menos no âmbito organizacional, em X, Y e sabe-se lá qual a próxima letra! Claro que se trata apenas de uma questão acadêmica ou didática para situar diferentes comportamentos dos indivíduos diante dos impactos que a evolução tecnológica provoca na sociedade. Cada geração, ainda que possa ser revolucionária, é tão somente a continuidade da anterior, sofrendo e aproveitando das experiências e da transferência do conhecimento. Pelo menos, até agora, não se percebem rupturas drásticas entre as gerações que não tenham sido iniciadas pela anterior.

É pela valorização do indivíduo, pela busca incessante de mais qualidade de vida, de maior controle do seu destino, de pretender atingir suas metas independentemente das influências de uma ou algumas organizações, que estão ruindo as estruturas de liderança e gestão baseadas no comando e controle. Pelas características das gerações que nasceram nos últimos 20/30 anos do século 20, que neste momento da vida já ocupam posições de destaque na liderança empresarial, as tradicionais formas de gestão baseadas no uso – às vezes indiscriminado – do poder da posição, não fazem mais sentido e tão pouco oferecem resultados que sustentem as estratégias de organizações que pretendem ser diferentes, ousadas, contemporâneas e alinhadas com os novos valores da sociedade.

Para reforçar a tese de criar um novo ambiente da liderança, destaco trechos do livro “O Novo Jogo dos Negócios” de Shoshana Zuboff & James Maxmin, obra que brilha ao tratar da necessidade de criarmos um novo ambiente de negócios que suporte os anseios e necessidades de uma nova sociedade:

“Os indivíduos mudaram mais do que as organizações de negócio das quais dependem. Os últimos cinqüenta anos testemunharam o surgimento da nova geração de indivíduos, embora as empresas continuem a operar de acordo com uma lógica inventada na época de sua origem, há um século. O abismo que hoje separa indivíduos e organizações é marcado por frustrações, desconfiança, decepção e até raiva. Além disso, abriga a possibilidade de um novo capitalismo e uma nova era de geração de riquezas.”

É sobre isso que a liderança tem que estar atenta: as diferenças fundamentais entre o que a sociedade deseja e o que as organizações oferecem. Uma pergunta não quer calar: mas, as organizações não são feitas por indivíduos dessa mesma sociedade? Como pode haver um contraste tão profundo nessa relação?

Vamos refletir mais sobre essa questão?

Voltamos em breve com mais um post para aprofundarmos este tema!

Abraços e aguardo comentários!

Sergio

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Passagem do Tempo - Eugenio Mussak em Vida Simples

Caros amigos,

Nestes dias um tema tem sido presente numa série de oportunidades de conversar com pessoas do meu relacionamento: a gestão do tempo. Sem dúvida, um assunto tão dificil de tratar quanto de gerenciar! Confesso que ainda não estou preparado para escrever algo mais profundo, mas um artigo recente do Eugenio Mussak na Revista Vida Simples (vocês sabem que sou assíduo leitor dessa publicação), lança alguma luz para uma reflexão. Algumas das informações do Eugenio no artigo, eu já havia tido contato num programa de treinamento do meu amigo Odino Marcondes, mas, ajudou a relembrar e lançar novos questionamentos sobre o tema.

Bem, quero pedir permissão ao Eugenio para compartilhar no blog essa leitura muito legal sobre o tempo... ah, esse vilão inexorável...

A PASSAGEM DO TEMPO

O tempo passa e ficamos com a sensação de que nunca o aproveitamos como deveríamos. Existe uma maneira de conciliar a vida com o tempo, que a consome?

Por Eugenio Mussak

Os gregos, que encontravam explicação para tudo pelas forças emanadas pelo monte Olimpo, não se contentavam em ter um deus do tempo, tinham logo dois: Cronos e Kairós. Um só deus grego não seria sufi- ciente para explicar a relação do homem com o tempo, tamanha a tensão que existe entre ambos.

A única proeza em que o homem teve sucesso, a respeito do tempo, foi conseguir medi-lo. Para isso, analisou ciclos, como os movimentos da Lua e do Sol, observou seu efeito sobre a natureza e, então, padronizou os tempos do ano, das estações e dos dias, posteriormente divididos em frações, chamadas horas, minutos, segundos. Em sua arrogância, o humano acreditou que, ao medir o tempo, o controlaria. Doce ilusão. As medidas só serviram para aumentar a sensação da passagem veloz do tempo, que escorre pelas mãos, como a água.

Mas nem tudo está perdido. Nós, humanos, podemos ser apenas pobres mortais, mas temos uma ferramenta que nos permite controlar, se não o tempo, nossa própria existência. Essa ferramenta se chama consciência. E ela nos permite conviver com o tempo com base em três visões: da física, da metafísica e da ética. Do ponto de vista físico, o tempo pode ser medido. No âmbito da metafísica, o tempo pode ser sentido. E, de acordo com a ética, o tempo deve ser vivido.

A física é a relação mais óbvia, e é com um instrumento físico que nós passamos a medir o tempo: o relógio. Contudo, ele apenas nos avisa que o tempo passa – o que faremos com essa informação é problema nosso. Do ponto de vista do que está além da física, o tempo é um sentimento, portanto ele tem duração variável, contrariando os relógios. Veja só: dois minutos de broca do dentista são mais longos do que 16 minutos escutando o Bolero de Ravel ao lado da pessoa amada.

E, quanto à ética, ela nos alerta para um fato óbvio só para os mais conscientes: o tempo é um recurso escasso que não pode ser reposto, e sua qualidade dependerá do que fi- zermos com ele. Como disse Marcel Proust: “O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração”. E ele entendia do assunto, pois dedicou mais de uma década para escrever cerca de 4 mil páginas, que foram publicadas em sete volumes dedicados à relação humana com seus valores, entre eles o tempo. A essa obra completa, o escritor francês chamou Em Busca do Tempo Perdido. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor faz várias voltas ao passado e descobre que só a memória poderá se defrontar com o tempo e nossa paz interior será proporcional ao que a memória encontrar na volta ao passado, ou seja, a qualidade que demos ao tempo que nos foi dado viver.

Podemos sentir o tempo e medi-lo. Então ele está à nossa disposição?

O tempo está à nossa disposição, mas é ele que dispõe de nós, por isso, estabelecer com ele uma relação de paz é um ato de sabedoria. Sentir e medir o tempo são aparentados, pois ambos nos permitem perceber seu andar ininterrupto. Como? Bem, sentir e medir o passar das horas são iniciativas úteis, pois nos ajudam a decidir o que faremos com o tempo de que dispomos. Assim, nossa paz com o tempo será diretamente proporcional à paz que estabelecemos com nossas escolhas e nossas decisões. E essas são pessoais, relativas aos valores de cada um.

O cientista inglês Stephen Hawking, que ocupa na Universidade de Cambridge a mesma cadeira que já foi de Newton, escreveu um livro chamado Uma Breve História do Tempo. Em dado momento, em meio a intrincados conceitos científicos, ele pondera que o tempo tem que ser analisado com base em três setas: a seta cosmológica, que explica a expansão do Universo, a seta termodinâmica, que explica a modificação constante das coisas, e a seta psicológica.

Sim, o físico mais importante da atualidade não consegue analisar os fatos do tempo sem recorrer à psicologia. Os enigmas intrincados da matéria se relacionam com os mistérios do tempo desde sempre, mas, quando o homem passou a protagonizar essa peça no palco do Universo, seus pensamentos e sentimentos acrescentaram novos ingredientes ao roteiro, às vezes de comédia, às vezes de tragédia.

A maior contribuição da física, nesse assunto, é a ideia da relatividade. As sofisticadas descobertas de Einstein sobre a velocidade da luz nos levaram a abandonar a ideia de tempo único e absoluto. Então: “O tempo se tornou um conceito mais pessoal, relativo ao observador que o está medindo”, diz Hawking. Nossa relação com o tempo se faz baseada em nossos valores, opções, decisões e culpas. É o tempo psicológico. Eu dedico mais tempo àquilo que tem mais valor para mim. O problema é conhecer seus valores.

Voltando aos gregos, Cronos é o deus do tempo medido, por isso usamos expressões como cronograma, cronologia, cronômetro. Nos livros de mitologia, ele é representado como um deus malvado, que come seus próprios filhos, simbolizando o que o tempo faz conosco atualmente – parece que ele nos devora. Já Kairós é o deus do tempo vivido, das escolhas que fazemos, da maneira como nós aproveitamos a vida. Cronos é quantitativo, e Kairós é qualitativo.

A primeira sensação é a de que Cronos é inimigo e Kairós amigo. O primeiro quer subjugar, e o segundo libertar. Mera sensação, pois, na prática, nós precisamos de ambos, uma vez que não podemos escolher a felicidade sem nos organizarmos para alcançá-la. Kairós nos estende a mão, Cronos nos empurra. Mas é necessário que saibamos o que queremos e que consigamos nos organizar.

A sabedoria consiste em estabelecer uma conexão entre os valores pessoais e a gestão do tempo disponível?

A mitologia ilustra bem essa angústia humana. Zeus, o mais poderoso deus do Olimpo grego, era filho de Cronos, mas nenhum dos dois conhecia esse parentesco, mantido em segredo por Réa, mãe dos filhos de Cronos. Mas Zeus só assume a posição de poder quando enfrenta Cronos e o vence em uma batalha. Ele havia sido sabiamente aconselhado a não matar seu oponente, pois assim ele estaria matando o próprio tempo e ficaria, então, aprisionado no instante, sem futuro nem memória.

A estratégia de Zeus foi vencer Cronos, cortando seus tendões e amarrando sua cabeça aos pés, criando um círculo com seu corpo. A partir de então, o deus do tempo passou a ser também o deus das ações repetitivas, como o dia e a noite e as estações do ano, eventos cíclicos.

Na prática, Zeus conquistou Cronos e o dominou, administrou. Nossa vida moderna não difere disso. Todos temos 24 horas por dia à nossa disposição, mas estou certo de que você conhece pessoas que aproveitam bem essas horas, produzem, trabalham, estudam, se cuidam, se divertem, cultivam as relações. E também conhece outros, que se queixam da falta de tempo, da velocidade dos acontecimentos, da sensação de impermanência e da falta de controle. Na prática, o que acontece mesmo é exatamente a falta de controle, de ação da lógica na organização de suas prioridades. A agenda não escraviza – ao contrário, liberta, confere autonomia, possibilidades, alcances.

Mas gestão é a segunda palavra -chave. A primeira é escolha. Fazemos nossas escolhas com base em nossos valores e criamos uma estratégia para atingir nossos propósitos. Estratégias dependem de recursos, entre eles, o mais caro e raro: o tempo.

O ideal seria estabelecer uma relação lógica entre presente, passado e futuro?

Muito se fala que a única coisa real é o presente, pois o passado não existe mais e o futuro ainda está por vir. Há uma lógica nessa observação, mas é uma lógica primitiva, pois esses tempos são totalmente interligados e interdependentes.

É verdade que o presente é a única realidade prática, mas também é verdade que é nesse instante que se inserem o passado e o futuro. Na dimensão temporal atual, o passado recebe o nome de memória e o futuro tem vários pseudônimos, como sonho, desejo, medo e esperança.

O futuro não é algo que vai existir. O futuro existe agora. Aliás, o futuro só existe no presente, pois, quando no futuro, o futuro virar presente, ele deixará de ser futuro. Parece óbvio, mas escapa da percepção cotidiana da maioria das pessoas. E escapa também o fato de que o futuro virará presente e, quando isso acontecer, ele será melhor ou pior, a depender das providências tomadas no presente, neste exato momento.

Em outras palavras, só vivemos no presente, mas estamos fortemente conectados ao passado, que nos ensina, e ao futuro, que nos motiva. Viver é estar atado a essa tríade temporal, doce ou amarga, dependendo da consciência de cada um. Fazer as pazes com o tempo é a verdadeira sabedoria. Só que “a sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas”, também disse Proust.

Sim, a sabedoria é uma maneira de ver as coisas, mas isso exige intenção, disposição e coragem. O problema é que desenvolvemos essas três qualidades em épocas diferentes de nossa vida, por isso a maturidade às vezes tarda, depende do tempo.

O mesmo tempo que exige maturidade para ser bem escolhido e controlado, em outras palavras, para ser muito bem vivido.

Abraços....

Sergio

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Jornada do Herói - As estruturas de referência no diálogo da liderança - II

A resposta sobre “quem sou eu” é, sem dúvida, uma aventura! E como tal faço esse desafio à você. Vamos iniciar essa viagem de descoberta? Prepare-se para as perguntas, pois elas é que irão conduzi-lo ao destino final – ainda que seja uma pretensão neste momento!


Como estamos a distância, proponho um roteiro. Um roteiro, como no cinema, que orienta a evolução da estória (no caso da sua história), que define o caminho a ser seguido. Podem existir variações (atalhos), que você pode criar - ou podem surgir - mas a escolha dos caminhos ou respostas será sempre sua. O roteiro que proponho para essa viagem de descoberta é baseado na Jornada do Herói. Esse conceito foi desenvolvido por Joseph Campbell e é apresentado e aprofundado em duas obras literárias: A Jornada do Herói – Joseph Campbell Vida e Obra (Editora Ágora) e; O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell (Editora Cultrix Pensamento). Se preferir, você pode rever a série O Poder do Mito, produzida pela BBC e disponível em DVD nas locadoras. Esse “roteiro” – e me perdoe Campbell pela redução de uma obra tão vasta e importante - tem sido largamente utilizado pelos grandes diretores do cinema, por exemplo George Lucas que apoiou-se na jornada do herói para construir a saga Guerra nas Estrelas.

A abordagem é simples: a construção dos mitos e/ou dos heróis nas sociedades que construíram a nossa história nada mais é do que um roteiro baseado na vida comum. Essa construção é complementada com adereços e aplicações que reforçam a ideia do êxito, da virtude, do exemplo e das imagens que podem servir de apoio à busca incessante da essência e da perfeição do ser humano. Portanto, nossa história individual tem todos os elementos que revestem a construção do herói ou do mito.

Para simplificar nosso entendimento e resguardada a essência dos estudos de Joseph Campbell, veja a seguir as principais etapas da construção do mito e da jornada do herói. Recomendo que na leitura inicial projete a sua vida neste roteiro. Está escrito para você pensar assim.

O mundo comum

Pense no contexto e a na base onde você vive. O cotidiano e a rotina do dia a dia. Esse contexto é fundamentado em conhecimentos já consolidados e em padrões já estabelecidos. É natural que você esteja acostumado a utilizar os mesmos métodos para coisas diferentes. Mas, os desejos pelo novo já estão presentes, com diferentes graus de intensidade.

Chamado à aventura

De repente, surge um desafio e sementes de possibilidades são lançadas. Provoca-se uma descoberta de que pode haver um mundo diferente, cheio de novas alternativas. Uma aventura nova para se viver e que pode agir como uma tentação – num primeiro momento. Apresenta-se um convite para sair do conforto diário e uma mensagem ou um mensageiro chega com a notícia de que chegou a hora de mudar.

Recusa ao chamado

Mas, seu primeiro sentimento é que não é uma brincadeira, é um jogo de alto risco. Você tem medo, quer manter a segurança do mundo como você conhece. Fica pensando nas coisas que pode perder, se não der certo. Você receia não saber lidar com os novos conhecimentos e expectativas, ou não ter competências suficientes. Essa aventura pode ir contra seus valores, crenças e conforto atuais. Você abandona a busca, foge do desafio, normalmente encontrando uma série de boas justificativas.

Encontro com mentor

Mas, o desafio continua presente, pois representa o vínculo entre onde estou e onde quero estar. De repente, surge um “mentor” que prepara para os desafios com conselhos, orientação, fortalecendo a confiança. Esse mentor pode ser uma pessoa, um livro, um filme, uma reflexão, enfim, algo ou alguém que me retorna à claridade do desafio. Podem ser heróis com experiência bastante para ensinar outros ou desconhecidos. Mesmo que não haja uma pessoa, sempre há um encontro com a sabedoria, com a experiência. Durante a aventura podemos ter vários mentores, nos diferentes estágios da jornada. É preciso estar atento. Mas ele não pode estar junto por todo o caminho. Você precisa conduzir sua própria história.

Travessia para o seu próprio interior

É o momento em que você decide agir e aceitar o desafio. Um ato voluntário onde você se compromete e se dispõe a aceitar as conseqüências (positivas e negativas) da sua escolha. Normalmente, nesse momento o comportamento típico é não aceitar conselhos e sair disparado em busca da aventura. Você esquece o medo e enfrenta a primeira prova.

Testes, aliados e inimigos

Ao longo da primeira prova, você descobre quem e o que pode ajudar ou atrapalhar. Você começa a experimentar o aprendizado de uma nova vida, sob novas regras. Está se adaptando ao novo mundo, deixando de ser “calouro”; vale-se de experiências e conhecimentos anteriores. Um grande inimigo pode ser descoberto ou reencontrado, assim como novos aliados. Você começa a se preparar para o grande desafio. Nesse estágio você formam parcerias, encontrando-se com outros que tem os mesmos interesses comuns. Uma equipe está surgindo.

Provação máxima

No confronto direto com o desafio você enfrenta momentos de muita tensão e pressão enormes. Será que vai dar certo ou não? É um momento crítico. Você não pode viver essa experiência sem se modificar de alguma maneira. O prêmio que se avizinha é o renascer para nova vida e a possibilidade de mudar o mundo comum no qual você vive.

Conquista da recompensa

A jornada está chegando ao final e você sente o prazer de vencer o desafio, ultrapassar os limites. Sente-se um herói, reconhecido como especial e diferente e toma posse do “prêmio” que se buscou durante toda a jornada. Agora, fortalecido, você sente que muitas possibilidades se abrem, até mesmo um novo mundo. Você se descobriu e aceita-se como é, com as forças e fragilidades que fazem parte de você.

O caminho de volta

É chegada a hora de administrar as conseqüências do final da aventura e dos seus resultados. Criar um mundo comum com mais sabedoria, mais experiência, frutos do aprendizado da jornada. Você está preparado para lidar com os sentimentos decorrentes de ter ultrapassado o desafio e, novamente, alcançar o patamar de conforto. Uma nova aventura vai se iniciar...

Bem, essa reflexão é intensa e extensa. Na próxima postagem darei dicas de como conduzir esse exercício com um bom filme.

Um abraço a todos!!

Sergio

quinta-feira, 20 de maio de 2010

As estruturas de referência no diálogo da liderança - I

Se vamos realmente usar o poder do diálogo no exercício da liderança, será preciso um esforço individual de autoconhecimento, de aprendizado e de mudança de comportamento nesse sentido.

Por onde começar?

Proponho uma estrutura que certamente trará importantes descobertas no caminho do desenvolvimento das competências de liderança, deixando claros os pontos fortes e oportunidades de desenvolvimento de cada indíviduo. Não se trata de nenhuma nova descoberta, mas de revisitar conceitos e práticas largamente utilizados nos diversos campos do desenvolvimento humano, passando pela filosofia, psicologia e psicoterapia, neurociência e, obviamente, pela ciência da administração.

Vou expor minha abordagem por etapas que, recomendo, devem ser seguidas na ordem apresentada. Eventualmente, alguns de nós já podem apresentar um bom nível de competência num ou em outro ponto, mas, vale sempre uma nova reflexão sobre esses pontos positivos. Afinal, como disse Guimarães Rosa em Grande Sertão – Veredas: “Os caminhos são sempre os mesmos. O que muda são os olhos do caminhante.”

Então, que tal começarmos pela grande reflexão que o ser humano vem fazendo desde sempre:

  • Quem sou eu?
Um dos meus livros preferidos tem o sugestivo título: “Quem sou eu? E, se sou, quantos sou?” O livro traz uma visão geral de vários tratados filosóficos clássicos e contemporâneos, passando por questionamentos dos impactos na resposta à pergunta-título dos recentes desafios da neurociência, física quântica, ética e moral e ecologia. Mas, que me faz trazer o livro aqui é simplesmente o título.

Para a construção de diálogos produtivos no ambiente da liderança nas diversas naturezas de relacionamento humano, é fundamental que eu possua uma visão - ainda que não completa – sobre meus valores, minhas ideologias, minhas fortalezas, minhas fraquezas, o que de fato importa para mim, enfim, elementos que me tornem efetivamente um protagonista na minha própria história, me levando a descobrir "quem sou eu?". Também é importante ter uma visão clara dessas questões e seus impactos nos diversos papéis que desempenhamos na vida, entre eles o de líder, pois, "se sou quantos sou?".

Continuaremos essa reflexão na próxima postagem.

Um abraço a todos!!

Sergio

quarta-feira, 19 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Diálogos e o novo Santander

Ao longo dos últimos anos, como membro de equipes de liderança, facilitador de aprendizado em gestão de pessoas e como mentor de alguns líderes, tenho me deparado com a busca permanente por parte dos profissionais - em todos os níveis hierárquicos, de experiência e de conhecimento - do “melhor caminho para a liderança de pessoas”. Não raro, eles me veem com as máximas: “ah, as pessoas... são tão complicadas... e dependemos tanto delas... como é complexo o comportamento humano... como é difícil sair deste conflito...

Ainda que tenhamos os mais diversos exemplos de líderes de sucesso (nem sempre com pessoas), retratados em livros, artigos, palestras etc, fica difícil estabelecer um padrão ou método para o desenvolvimento de um comportamento mais efetivo que garanta a “entrega de resultados superiores através das pessoas”. O que normalmente se encontra, mesmo que não publicamente reconhecidos, são: ” resultados superiores apesar das pessoas”; ou “resultados possíveis em função das pessoas”. Ora, uma análise objetiva, ainda que empírica, indica um erro grave da postura do líder: a falta de protagonismo, gerando uma postura permanente de vítima: o problema é com o outro. Decididamente, esse não é o melhor caminho. Reconheçamos, é verdade, o ser humano é algo complexo. Cada um é diferente. Cada um tem expectativas e valores próprios. Cada um se comunica a sua maneira e com os seus recursos.Cada um busca seus interesses e seus sonhos. Naturalmente, essa complexidade é justamente o fator que nos torna únicos, mas, no ambiente organizacional essa realidade se apresenta como uma grande dificuldade para que o líder possa realizar o seu trabalho.

Imaginem uma equipe de 20 pessoas diretas (não raro, esse é o número):

• Como lidar com as diferentes personalidades, expectativas, necessidades, valores, modelos mentais?
• Como atender a todos de forma que a motivação se manifeste presente para que os resultados aconteçam?

Desde sempre tenho feito reflexões a partir de minha experiência como líder e como orientador de líderes. Descubro, como Sócrates, que sei que nada sei. O ser humano é complexo e se não aceitarmos essa realidade vai ser difícil qualquer tentativa de mudança de comportamento do líder no sentido de construir organizações com ambientes de saudável desafio.

Ora, será que não é possível? Lógico que é!! Estamos repletos de exemplos de líderes que fazem a diferença! Que conseguem construir algo absolutamente inovador e que muda a vida das pessoas, ainda que não todas!

Quer um exemplo no nosso dia-a-dia?

Alguém já se deu conta, ainda que não seja cliente, da estratégia de comunicação neste momento do Santander? Os amigos espanhóis sempre foram vistos como predadores do mercado e os fatos comprovam. Sua sede de compra, de controle de grandes instituições financeiras, destacando-se no apetitie voraz de construir o market share sempre baseados nas oportunidades de mercado e, sinceramente, acho que eles tem uma estratégia fantástica e, portanto, sem nenhum juízo de valor sobre o movimento desse grande grupo na dominância dos mercados financeiros das jovens economias ascendentes.

Mas, no Brasil, tem sido diferente. Não há duvidas que quando assistimos a um comercial do Santander escutamos a mensagem do Banco Real. A marca não existe mais, mas a liderança está lá – Fábio Barbosa – , com sua proposta diferente de fazer negócios “juntos” ainda que com todo o respeito que o lucro deve proporcionar.

Tenho certeza que os nossos amigos e importantes parceiros espanhóis estão felizes - e juntos - !!

Penso nos diálogos do Fábio com os espanhóis para iniciar a construção de um novo Santander "all over the world"!!! JUNTOS...

Parabéns Fábio!!! Você é o cara!!!

Sergio

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Poder do Diálogo

Tenho observado que as pessoas estão perdendo a habilidade para conversar. Será que o diálogo, no mundo atual, tão veloz, perdeu a importância?

por Eugenio Mussak
Publicado na Revista Vida Simples

Como o verdadeiro diálogo ocorre? Então é possível aprender a dialogar, a melhorar a capacidade de comunicar-se e de entender o outro?

Depois de muitos anos, reencontrei a Roberta. Amiga de primeira hora na minha chegada a São Paulo, há mais de dez anos, ela e seu marido Claudio foram importantes para me ajudar a perceber que eu poderia criar relações e raízes nesta cidade. Com o tempo fomos perdendo contato, à medida que nossos trabalhos foram ganhando dimensão e espaço, mas ficou aquela sensação gostosa da amizade e do carinho, revelados pelas lembranças de muitas conversas. Ambos eram bons de papo.

– E aí, Roberta, quanto tempo, não é mesmo? Como é que vai a vida? E o Claudio, como está? – disparei, perguntando várias coisas ao mesmo tempo, marca registrada dos encontros após separações longas.

– Eu vou bem, trabalhando muito, terminei o mestrado – e emendou uma explicação sobre sua dissertação. Eu sempre a tive na conta de uma pessoa muito inteligente e focada; não tinha dúvidas sobre seu sucesso acadêmico.

Ela falava com entusiasmo de suas atividades, mas nenhuma palavra sobre sua vida pessoal, seu casamento.

– Parabéns, menina, eu sabia que você iria para o topo. Mas, e o Clau- Foto: Daniel Aratangy; ilustração: Buia dio? Ainda está na mesma empresa? Continua jogando bola?

– Pra dizer a verdade, não sei o que ele tem feito. Estamos separados há mais de um ano. Ninguém te contou? Não, ninguém havia me contado, até porque não tínhamos muitos amigos em comum. Mas aquela notícia teve em mim um efeito estranho, foi como se alguém me contasse da queda de uma instituição. Eu considerava a relação deles muito boa, um exemplo.

– Puxa, que pena. Mas o que aconteceu? Vocês sempre foram tão unidos, ou pelo menos pareciam ser.

– Não sei bem, só posso te dizer que, com o tempo, as coisas foram mudando, até que sentimos que não tínhamos mais diálogo. Enquanto nós conversávamos sobre nossos planos e dilemas pessoais, a coisa ia bem. Quando paramos de falar, de abrir o peito, de juntar os corações, o caldo desandou. Preferimos nos separar antes que acabasse o respeito, já que o amor parece que tinha ido embora. Eu também acho que foi uma pena, mas posso te dizer que foi bom enquanto durou.

A querida Roberta acabou por fazer uma rápida análise técnica do fim de sua relação: “Foi bom enquanto durou, e acabou por falta de diálogo”. É duro dizer se o amor se dissolveu pela falta de diálogo ou se este se rarefez pela volatilização daquele.

A lição que fica dessa história é que o diálogo, a comunicação, a abertura dos corações – no dizer da Robertinha –, seja sintoma, seja causa, merece atenção especial, pois pode ser o remédio para todos os males, uma vez que ele permite a unificação das ideias, dos sentimentos, dos sonhos e também das mágoas, que só podem ser resolvidas se forem trazidas à luz, se se fizerem claras, evidentes. Se se construir uma ponte para ligar almas. Essa ponte é o diálogo. De repente me lembrei de um poeminha que cometi há muitos anos, quando fui paraninfo de uma formatura: “Escolha ser uma ponte, caro jovem, nunca um muro/ Pontes unem, muros separam/ Pontes colocam corações a dialogar/ Muros emudecem as intenções e debilitam almas/ Escolha ser uma ponte para alcançar o futuro/ Uma simples ponte. Mas uma ponte que mostre o caminho do amar”.

Não, o diálogo não perdeu importância no mundo atual, veloz, globalizado, tecnológico, cibernético, bloguista, twiteiro. Só que ele tem sido, aparentemente, menosprezado por quem acha que ele não combina com a modernidade e, principalmente por todo homem ou mulher que colocou, por sua culpa ou não, a pirâmide dos valores humanos de cabeça para baixo. Esclareça-se: o diálogo é uma intenção, independente do meio. É possível manter um excelente diálogo através de ferramentas como skype, o MSN, o SMS e afins. Ferramentas que podem ser bem ou mal utilizadas, como tudo na vida.

Como o verdadeiro diálogo ocorre? – A um monólogo com você, pre-firo um diálogo comigo mesmo! A frase-desabafo acima pode ser uma piada, ou parte dela, mas contém uma verdade, pois não é incomum que aquilo que parece ser um diálogo – duas pessoas conversando – na verdade seja um discurso unilateral, em que um dos dois fala e o outro apenas ouve. Ainda que isso às vezes seja necessário, não estamos diante de um diálogo.

Saber dialogar é mais que saber falar. Dialogar pressupõe ouvir e analisar, antes de responder. “Dialogar é saber ouvir sem julgar, sem tomar posição imediatamente. É saber respeitar, incluir, usar os filtros mentais adequados. Dialogar é não tomar partido, definir o que está certo ou errado, não excluir aquilo que não faz parte da minha visão pessoal”, diz a psicóloga Lamara Bassoli, que é coordenadora da Escola de Diálogo de São Paulo.

Sim, existe uma instituição que se destina a ajudar as pessoas e as empresas (que nada mais são que conjuntos de pessoas) a recuperar a capacidade de dialogar e, a partir disso, promover a “transformação das experiências humanas e a ampliação da consciência”, na visão de seus fundadores (saiba mais no site: www.escoladedialogo.com.br).

O diálogo é a essência da vida, considerando que a vida é um conjunto de interações.

“Dialogar é prestar atenção, é uma religação consigo mesmo, com o outro, com o ambiente, com a natureza”, continua Lamara, que fala com doçura, sempre olhando nos olhos de seu interlocutor. Pode parecer estranho ter de haver uma escola para ensinar o diálogo, mas a ideia não é exatamente nova. A educação dos jovens na Antiguidade – leia-se Grécia – já pensava nisso. Educar era – e ainda é – a maneira de estimular os jovens a viver autonomamente e a colaborar com a polis, a sociedade, que na época dos gregos antigos era concentrada na vida da cidade.

Havia, nas cidades-estados gregas, um espaço destinado exclusivamente à prática do diálogo: a Ágora, o local para as trocas, para o exercício da política, do comércio, das ideias em geral. A Escola do Diálogo tem um espaço semelhante, destinado a estimular o diálogo livre, rico, respeitoso.
Então é possível aprender a dialogar, a melhorar a capacidade de comunicarse e de entender o outro? Na Antiguidade, quando a formação dos jovens começou a se tornar uma atividade social da maior importância, o estudo foi dividido em dois grandes capítulos. Um era o das Habilidades Ocupacionais, que procurava dar ao jovem um ofício, uma competência técnica, operacional, artesanal, algo com certo caráter científico, que lhe permitia ser o que hoje chamaríamos de empresário, empreendedor ou técnico especializado.

O outro capítulo, destinado principalmente aos jovens das classes mais privilegiadas, era composto pelas Artes Liberais, um conjunto de estudos cujo propósito é o de prover os jovens de conhecimentos e habilidades que lhes permitiriam manejar com mais facilidade as necessidades do cidadão, do indivíduo que vive em sociedade e é capaz de usar sua influência para viver feliz produzindo o bem.

As chamadas Artes Liberais estavam divididas em dois capítulos: o Trivium e o Quatrivium. Estes, por sua vez, tinham suas disciplinas. O Trivium era composto por gramática, retórica e dialética. E o Quatrivium se dividia em aritmética, música, geometria e astronomia.

Perceba que o Trivium tinha a finalidade de desenvolver o homem como ser estruturado para a comunicação. A gramática nos ensina a lidar com as palavras, a lógica na construção das frases, a beleza da linguagem. A retórica é a arte do falar, do discurso, da externalização das ideias. Já a dialética pressupõe a contraposição das ideias como meio para elevar o pensamento.

Em outras palavras, você estará preparado para viver em sociedade, para usufruir dela e para colaborar com ela, quando souber organizar suas ideias, quando tiver a habilidade para explicá-las e, claro, quando estiver preparado para ouvir o outro.

Só depois de estarem prontos para o diálogo é que os jovens estudantes eram apresentados às teorias dos números, da matéria e do espaço. Primeiro o homem, depois a ciência. O pensamento precisa do número, mas o número se perde em uma mente não preparada. E tal preparo vem da capacidade de análise, síntese e dedução. A indução vem depois.

Como se vê, dialogar é fundamental para a própria condição humana. O diálogo com outros começa pelo diálogo consigo mesmo, que deriva da justaposição das ideias, da fricção entre valores, do choque dos desejos, da priorização das necessidades. Sempre haverá dois, ainda que dentro de um. E onde há dois surge a oportunidade do diálogo, do engrandecimento pelo compartilhar, do enobrecimento pelo aceitar, da humildade pelo aprender.

Se olharmos mais de perto veremos que o diálogo é a essência da vida, considerando que a vida é um conjunto de interações. Em seu livro A Segunda Criação, o biólogo inglês Ian Willmut, famoso por ser o “pai” da ovelha Dolly, o primeiro mamífero gerado pelo processo de clonagem, escreve sobre o diálogo como fonte de vida. Diz ele: “Os genes não operam isoladamente. Eles estão em diálogo constante com o resto da célula que, por sua vez, responde a sinais de outras células do corpo que, por sua vez, estão em contato com o ambiente externo. Quando esse diálogo não se processa corretamente, os genes saem de controle, as células crescem desordenadamente, e o resultado é o câncer”.

Interessante a visão do geneticista: o câncer é resultado da falta de diálogo. Podemos estar falando do câncer orgânico, tumoral, mas também do câncer social, das relações, que mata igual, se não um organismo, uma relação, uma amizade, um negócio, um casamento. Como foi o caso de meus amigos Roberta e Claudio, ambos ótimas pessoas. Pena que o diálogo deixou de participar dessa relação, que deve ser a três para que seja um só.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Humildade

Uma lição de sabedoria com o pensador que tinha consciência de sua própria ignorância. Por José Francisco Botelho – Revista Vida Simples

Já que estamos falando de filósofos, e gregos, que tal começarmos pelo expoente de todos - Sócrates. Este texto foi publicado em número recente da revista Vida Simples, publicação de obrigatória leitura para todos que pretendem um melhor entendimento da vida e suas coisas simples. Espero que gostem!!!

Sergio

O filósofo grego Sócrates foi um dos poucos personagens históricos que mudaram os rumos do pensamento humano sem ter deixado uma única linha por escrito. Outros membros desse seleto clube são Buda e Jesus Cristo; ao contrário deles, Sócrates não fundou religião alguma, mas sua vida e personalidade estão até hoje cercadas por uma aura de mistério muito próxima à dos místicos e dos santos (no Islã medieval, aliás, ele era conhecido como o “profeta da Grécia antiga”). Considerado por alguns historiadores como o fundador da filosofia ocidental, ele é até hoje uma das figuras mais controversas e obscuras na história das ideias: tudo o que sabemos sobre ele é um punhado de fatos esparsos, relatados nas obras nada imparciais de seus fervorosos discípulos e seus igualmente entusiasmados detratores. O amor e o ódio a Sócrates, por sinal, são dois vetores constantes na história da filosofia: um jogo de veneração e repulsa que já rendeu muito arranca-rabo metafísico.

Grande parte do que sabemos sobre Sócrates está contido na obra de seu discípulo mais famoso, Platão – nos textos conhecidos como Diálogos, ele retratou as incansáveis discussões filosóficas entabuladas pelo mestre. Uma das questões mais espinhosas na história da filosofia é, precisamente, fazer a distinção entre o pensamento de Sócrates e o de seu discípulo-biógrafo. Contudo, por mais difícil que seja determinar o teor exato das ideias socráticas, o que ninguém nega é a importância descomunal do método de filosofar empregado por ele: a dialética ou, tirando em miúdos, a arte do diálogo. Para compreendê- la, é preciso dar uma olhadela no fascinante mundo em que Sócrates viveu e filosofou – a Grécia do século V a.C.

Quando Sócrates nasceu, por volta de 469 a.C., os gregos haviam acabado de derrotar a Pérsia – a superpotência expansionista da época – nas chamadas Guerras Médicas. O triunfo militar abriu as portas para um dos períodos mais férteis da civilização ocidental. Atenas se tornou senhora de um vasto império marítimo e centro de uma cultura efervescente. Por meio de uma série de reformas políticas, os atenienses aperfeiçoaram o sistema de governo que haviam adotado no século 6 a.C.: a democracia. A cada mês, os cidadãos com mais de 30 anos se reuniam em uma grande Assembleia para debater leis e escolher magistrados. Cada um tinha o direito de defender suas ideias em discursos públicos. Por isso, a arte de falar bem – para convencer, para dissuadir ou mesmo para engambelar – se tornou uma das ocupações favoritas entre os atenienses de todas as classes.

A arte do diálogo É nesse contexto que surgem os sofistas – trupe de intelectuais itinerantes que, em troca de remunerações graúdas, ensinavam as manhas da retórica aos jovens atenienses com ambições políticas. Até então, a filosofia grega se ocupava principalmente de assuntos cosmológicos, como a natureza dos astros e a origem do universo. Os sofistas mudaram essa equação: para eles, o objeto da reflexão filosófica era o próprio homem. Foi um sofista chamado Protágoras quem cunhou uma das frases hoje utilizadas para descrever o espírito daquela época: “O homem é a medida de todas as coisas”. Outra grande inovação introduzida por eles foi o uso do diálogo como método de reflexão e persuasão. Até então, pensadores e políticos costumavam deslindar suas ideias em longos monólogos, emitidos do alto de tribunas, para audiências que podiam interferir apenas com aplausos ou apupos. Já os sofistas preferiam exibir suas habilidades lógicas e seus floreios argumentativos em debates cara a cara, em que dois ou mais interlocutores se digladiavam na defesa de ideias opostas. Esse método dinâmico e vivaz fez grande sucesso em meio à juventude ateniense, que acorria em pencas para assistir aos animados duelos de eloquência protagonizados por Protágoras e sua turma.

Em meio às entusiasmadas audiências dos diálogos sofistas, havia um sujeito pobretão, excêntrico e dono de uma feiura proverbial. Antes de ganhar celebridade como filósofo, Sócrates já era famoso como o maior esquisitão de Atenas. Filho de um escultor e de uma parteira, ele se dedicou por alguns anos ao ofício do pai. Mas, ao que tudo indica, o patrono da filosofia ocidental não era, digamos, um sujeito muito trabalhador. Sua principal ocupação era sondar a alma humana, e pouco tempo lhe restava para questões rotineiras, como ganhar a vida. Costumava andar pelas ruas de Atenas metido em roupas puídas, com as grandes barbas descabeladas e sempre perdido em reflexões. Às vezes, tinha acessos de abstração que pareciam loucura: em determinada ocasião, passou mais de 24 horas parado ao relento, entregue a alguma complexa ponderação metafísica. Também afirmava ouvir uma voz misteriosa que lhe ditava regras de conduta – entre outras coisas, esse estranho anjo da guarda teria proibido Sócrates de se envolver em política (para o filósofo, nenhum homem justo pode enveredar por esse escuro pantanal da atividade humana sem perder a alma ou a vida).

Sócrates aprendeu a filosofar assistindo às preleções dos sofistas, mas logo acabou se afastando dos antigos mestres. Com o tempo, o desgrenhado pensador compreendeu que o excesso de truques retóricos de seus concidadãos servia muitas vezes para ornamentar mentes vazias (qualquer semelhança com o universo acadêmico de hoje não é mera coincidência). Cheia de intelectuais falastrões e de políticos oportunistas, Atenas havia se tornado uma cidade excessivamente satisfeita consigo mesma – e Sócrates decidiu que caberia a ele fustigar a soberba de seus contemporâneos. Mas, para abraçar plenamente sua vocação à insolência, ele precisou de um empurrãozinho divino.

Quando confrontados pelos aspectos mais obscuros ou espinhosos da existência, os antigos gregos costumavam consultar os deuses (naquela época, não havia psicanalistas). Para isso, existiam os oráculos – locais sagrados onde os seres imortais se manifestavam, devidamente encarnados em suas sacerdotisas. Certa vez, talvez por brincadeira, um ateniense perguntou ao conceituado oráculo de Delfos se haveria na Grécia alguém mais sábio que o esquisitão Sócrates. A resposta foi sumária: “Não”.

Saber e não saber O inesperado elogio divino chegou aos ouvidos de Sócrates, causando-lhe uma profunda sensação de estranheza. Afinal de contas, ele jamais havia se considerado um grande sábio. Pelo contrário: considerava-se tão ignorante quanto o resto da humanidade. Após muito meditar sobre as palavras do oráculo, Sócrates chegou à conclusão de que mudaria sua vida (e a história do pensamento). Se ele era o homem mais sábio da Grécia, então o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância. Para colocar à prova sua descoberta, ele foi ter com um dos figurões intelectuais da época. Após algumas horas de conversa, percebeu que a autoproclamada sabedoria do sujeito era uma casca vazia. E concluiu: “Mais sábio que esse homem eu sou. É provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um tantinho mais sábio que ele exatamente por não supor saber o que não sei”. A partir daí, Sócrates começou uma cruzada pessoal contra a falsa sabedoria humana – e não havia melhor palco para essa empreitada que a vaidosíssima Atenas. Em suas próprias palavras, ele se tornou um “vagabundo loquaz” – uma usina ambulante de insolência iluminadora, movida pelo célebre bordão que Sócrates legou à posteridade: “Só sei que nada sei”.

Para sua tarefa audaz, Sócrates empregou o método aprendido com os professores sofistas. Mas havia grandes diferenças entre a dialética de Sócrates e a de seus antigos mestres. Em primeiro lugar, Sócrates não cobrava dinheiro por suas “lições” – aceitava conversar com qualquer pessoa, desde escravos até políticos poderosos, sem ganhar um tostão. Além disso, os diálogos de Sócrates não serviam para defender essa ou aquela posição ideológica, mas para questionar a tudo e a todos sem distinção. Ele geralmente começava seus debates com perguntas diretas sobre temas elementares: “O que é o Amor?” “O que é a Virtude?” “O que é a Mentira?” Em seguida, destrinchava as respostas que lhe eram dadas, questionando o significado de cada palavra. E continuava fazendo perguntas em cima de perguntas, até levar os exaustos interlocutores a conclusões opostas às que haviam dado inicialmente – e tudo isso num tom perfeitamente amigável. Assim, o pensador demonstrava uma verdade que até hoje continua universal: na maior parte do tempo, a grande maioria das pessoas (especialmente as que se consideram mais sabichonas) não sabe do que está falando.

Para muitos ouvintes, o efeito do diálogo socrático era a catarse – uma experiência de purificação espiritual em que as portas do autoconhecimento se escancaram.

Deixando de lado a casca das ideias preconcebidas e os clichês, o discípulo estava pronto para a perigosa aventura de pensar por si mesmo. Às vezes, os argumentos desse conversador incansável eram tão azucrinantes que alguns ouvintes o atacavam no meio da rua, com chutes e pontapés. Perante tais indignidades, ele se limitava a responder com invulnerável ironia: “Não se costuma revidar contra os jumentos que nos escoiceiam”.

Tamanha independência de espírito pode ser algo bem arriscado – tanto na Antiguidade quanto hoje em dia. As patotas políticas não sabiam como lidar com aquele homem que questionava e irritava a todos com o mesmo sorriso de implacável gentileza, sem se deixar aliciar por ninguém. Em 399 a.C., seus desafetos conseguiram levá-lo a julgamento. O filósofo foi acusado de desrespeitar os deuses oficiais da cidade e de “corromper a juventude”: na prática, o que estava sob ataque era sua mania de fustigar a tudo e a todos sem pruridos. Ameaçado com a pena de morte, ele retrucou: “Ninguém sabe o que é a morte. Talvez seja, para o homem, o maior dos bens. Mas todos fogem dela como se fosse o maior dos males. Haverá ignorância maior do que essa – a de pensar saber-se o que não se sabe?” Com sua recusa a retratar-se perante a assembleia, o filósofo foi condenado a morrer por envenenamento. No dia de sua execução, reuniu- se com os amigos, trocou pilhérias e, naturalmente, entregou-se a discussões filosóficas. O carcereiro, ao lhe trazer a taça com cicuta, estava chorando. Mas Sócrates tinha os olhos secos. Bebeu o veneno como quem toma um remédio, despediu-se dos amigos com cavalheiresca tranquilidade e se esticou no catre, como se fosse dormir. E só então seu gênio insolente se calou.

O “vagabundo loquaz” de Atenas foi a primeira figura célebre na história do pensamento a morrer por suas ideias – e sua execução é um dos mitos fundadores da filosofia ocidental. A relevância de Sócrates, contudo, transcende o universo dos filósofos especializados ele se tornou, em grande medida, um modelo de conduta humana. Sua modéstia, numa época de vaidade intelectual, é um aviso aos navegantes de todos os séculos: por mais poder e desenvolvimento que uma civilização tenha atingido, o fato é que, no fundo, continuamos todos humanamente estúpidos. E a negação de nossa própria estupidez pode nos transformar em monstros. Escapar à ignorância congênita da espécie é possível, sim – mas essa é uma tarefa que não se realiza sozinho. A verdade (se é que ela existe) só pode surgir pelo confronto direto e implacável (mas sempre amigável) entre duas ou mais criaturas racionais. Pensar por si mesmo e a si mesmo, olhando no espelho do outro: eis a lição aparentemente simples, mas hoje tão esquecida, legada por uma das figuras mais intrigantes na história da humanidade.

Sócrates: Um dos fundadores da filosofia ocidental, o pensador morreu em 399 a.C. Como Buda e Cristo, que não deixaram escritos, Sócrates é conhecido hoje pelos textos de seus discípulos. A trajetória de Sócrates é uma cruzada contra a falsa sabedoria. Sempre amigável, o filósofo demonstrava o quanto ainda sabemos tão pouco dos mistérios da vida

PARA SABER MAIS: O Julgamento de Sócrates, I.F. Stone, Companhia de Bolso Apologia de Sócrates, Platão, L&PM Pocket

O melhor líder

Muitas são as definições de liderança. Para mim, a mais completa é esta:

"Um líder é o melhor apenas quando se sabe que ele existe. Não tão bom quando adorado, ruim quando temido, pior quando odiado. Mas, de bom líder, quando seu trabalho estiver terminado, sua obra completada, todos dirão: fomos nós que fizemos."

Esta é uma tradução livre do pensamento de Lao Tsé, filósofo chinês que viveu no século IV AC. Incrivelmente atual!

Para mim, a primeira frase e a última traduzem a essência da liderança.

"Um líder é o melhor quando apenas se sabe que ele existe..." O exercício da liderança autêntica e sustentável precisa ser suportado por comportamentos do líder no sentido de se fazer presente, ainda que lá não esteja fisicamente e, se estiver, que as pessoas ao seu redor sintam-se apoiadas e respeitadas, ainda que não seja necessária uma palavra sequer.

"fomos nós que fizemos." Essa tem que ser a percepção e o sentimento das pessoas ao redor do líder sobre as realizações individuais e do grupo. Nada mais é do que a demonstração que aquele líder presente encoraja as pessoas a buscarem seus objetivos e alinhá-los com os objetivos comuns do grupo onde estão, ou da obra que está sendo realizada.

Para pensarmos se nossas posturas, atitudes e comportamentos nos tornam indispensáveis ou verdadeiramente presentes! Para pensarmos se quando entregamos os resultados, eles de fato são produtos do esforço de todos e assim são reconhecidos.

Sergio

Bem-vindos ao blog Diálogos da Liderança!

Este é um espaço que combina informação, conhecimento, troca de experiências, relacionamento e reflexões pessoais!

Meu objetivo é compartilhar com vocês toda e qualquer informação relavante acerca do exercício da liderança em todas as esferas da vida: profissional, pessoal, familiar, social, institucional etc, enfim, em qualquer momento onde as competências da liderança estão presentes.

Não pretendo trazer conteúdos exclusivos para quem exerce uma posição - formal ou informal - de liderança, mas, antes de tudo, propor reflexões sobre os dois papéis que sempre estão presentes no cotidiano: líder e liderado! Também não pretendo adotar uma única linha de pensamento sobre liderança, mas lidar com a pluralidade de conceitos e visões acerca do tema. A escolha do que realmente é melhor será de cada um!

O convite do blog é para retomarmos um comportamento que remonta a Grécia Antiga, berço da civilização ocidental. Naquela época, as cidades contavam com espaços chamados de ágoras, onde se reuniam livremente os cidadãos para discutir os mais diversos temas e, melhor do que discutir, dialogar entre si. Os diálogos eram muitas vezes conduzidos por pensadores e sábios das mais diversas correntes de pensamento, cujo único objetivo era a possibilidade do incremento aprendizado e de reflexão.

Bem, contexto histórico a parte, publicarei aqui artigos e reflexões próprios, textos e matérias de outros especialistas, pensadores, gurus, reportagens, frases, livros e cursos interessantes e tudo o mais de valor que pode contribuir para o desenvolvimento de uma liderança sustentável. Também preciso de sua contribuição, com comentários, dicas de textos, exemplos de sua própria experiência, críticas positivas sobre as publicações.

Aproveite!!

Sergio